Nutrição - aula 3

 

Aula 3

Pluralismo metodólogico

Método nada mais é do que um procedimento tendo em vista chegar a um fim. No caso específico da ciência, encontrar a verdade sobre o que nos circunda. A técnica tem um diferencial a mais: operar sobre os eventos.

Na filosofia, às vezes o método é a peça central, às vezes é deixado de lado, visto até mesmo com horror, como com os pós-modernos. Bem diferentes de René Descartes, que, antes de pensar, estabeleceu um jeito de pensar.

A medicina, árvore-mãe da nutrição, mudou muito ao longo do tempo... de acordo com o povo, religião, sempre foram praticadas coisas diferentes. A circuncisão, por exemplo, era praticada tanto por judeus como egípcios. Ao passo que, recentemente há quem a defenda por higiene e conforto, sem nenhum tipo de pensamento mágico ou contratual com Deus.

Na alimentação temos exemplos análogos. Gente que vê o mundo de forma totalmente diferente pode pensar igual. Assim temos o exemplo que aproxima alopatia de ayurveda. A alopatia é a medicina de Hipócrates, predominantemente grega, embora tenha se desenvolvido muito com os árabes, principalmente no medievo. A ciência médica mundialmente reconhecida é predominantemente alopática. Para a alopatia, todos os organismos são iguais. Os homens não têm características determinadas pelo cosmos, e sim são marcados pela hereditariedade, meio ambiente e costumes. Para a ayurveda, há três tipos de pessoas, para as quais haveriam substâncias e posturas mais e menos afins. São modos completamente diferentes de entender o mundo. Na índia antiga, os astros é que diriam o que é bom para você.

Mas há correlatos. Em alguns aspectos, a ayurveda também prescreve noções gerais. E aí encontramos um conhecimento técnico, que, embora seja divergente no tocante ao “o que é”, ou seja, ao que está acontecendo de fato, o remédio é o mesmo. Refiro-me à digestão. Na alopatia, é bem aceita a doutrina que afirma que o estômago secreta ácido clorídrico, que processa os alimentos. Por isso os gastroenterologistas não recomendam beber líquidos ao se alimentar.  Na ayurveda a crença não é quimicalista. Eles afirmam que o estômago “tem um fogo” (problema que na alopatia, nos leva a Deus quando pensamos no coração pois embora possamos pensar no ciclo de Krebs, ninguém explica porque alguns seres têm sangue quente e outros não...podemos pensar como um fogo também). Os indianos dizem que beber comendo “apaga o fogo” do estômago, estragando a digestão.

O pluralismo metodológico é a postura intelectual em que se pode divergir de tudo ou quase tudo mas não se deixa de dialogar. É uma postura salutar pois pode nos levar a novas noções, a descobertas, a ver as mesmas coisas com outros olhos, a entender melhor o que não nos satisfazia em determinada cosmovisão. Feyerabend era um anarquista epistemológico. Dizia que podemos descobrir as coisas através de qualquer meio. Ele denegava o método, que tantas vezes nos acomoda a uma percepção monótona e tendenciosa. Deste modo, um camelô pode descobrir algo sobre o trânsito que um engenheiro de tráfego preso à prancheta por 30 anos não se deu conta. Ou um cozinheiro pode desvendar um enigma químico. E assim por diante.

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